A próxima legislatura terá a maior bancada feminina da história do Congresso Nacional: 109 deputadas federais e 18 senadoras ao todo — resultado da eleição de 12 mulheres nas 54 vagas disputadas este ano. Mesmo com esse crescimento em números absolutos, as mulheres continuarão em posição minoritária nas duas Casas, ocupando pouco mais de um quinto das cadeiras, o que limita a capacidade de impor sozinhas mudanças na agenda legislativa.
O salto no número de eleitas aconteceu em um quadro paradoxal: houve menos candidatas mulheres em 2026 do que em 2022 — 2.820 contra 3.317 — e, ainda assim, o número de deputadas subiu de 90 para 109. A combinação de menos concorrentes e mais eleitas indica um aumento da taxa de sucesso eleitoral entre mulheres. A federação formada por PT, PCdoB e PV foi a que elegeu a maior parcela: 34 das 109 deputadas escolhidas pelo eleitorado.
A diversidade racial entre as parlamentares também avança de forma desigual. Na Câmara, o levantamento da organização Mulheres Negras Decidem aponta ao menos 15 deputadas federais negras, alta de 66,6% em relação a 2022, quando eram nove. No Senado, no entanto, as 12 senadoras eleitas em 2026 não incluem mulheres negras; nomes como Eliziane Gama, Mariana Silva e Benedita da Silva deixaram de figurar entre as vencedoras. Benedita da Silva foi a primeira mulher negra eleita para o Senado, em 1998; até hoje foram apenas quatro no total.
Em termos proporcionais, as mudanças mantêm as mulheres como minoria institucional: na Câmara a bancada feminina representará cerca de 21% dos 513 deputados; no Senado, a participação chegará a 22,2% das 81 cadeiras. O Distrito Federal terá três senadoras, tornando-se a única unidade da federação com essa composição; por outro lado, o Piauí continua sem nunca ter eleita uma mulher para o Senado. As novas deputadas e senadoras tomam posse em fevereiro e ficarão nos cargos até 2035.
Especialistas apontam que números maiores não significam automaticamente avanço de pautas específicas. A professora Flávia Biroli, da UnB, lembra que mais mulheres trazem também maior diversidade interna, com posições que variam desde agendas progressistas até perspectivas conservadoras sobre gênero. Na prática, a influência feminina dependerá de fatores como distribuição partidária, ocupação de lideranças e comando de comissões, além das negociações em bancadas e federações.
O que importará para o eleitor nos próximos meses é como essa nova bancada será organizada e que espaços conquistará nas mesas de decisão do Congresso. A definição de presidências de comissões, a formação de bancadas temáticas e as negociações por cargos na Mesa Diretora vão mostrar se o ganho numérico se traduz em poder real para alterar prioridades fiscais, políticas públicas e propostas ligadas a direitos. Fique atento às primeiras votações e à composição das comissões, quando se verá o alcance dessa renovação.