O mercado brasileiro respirou com alguma correção nesta terça-feira, um dia depois do choque provocado pela reeleição do presidente Lula. O dólar caiu 1,14% e fechou em R$ 5,348, amenizando parte da alta de segunda, quando a moeda havia subido mais de 8%. Mesmo com o alívio no câmbio, a bolsa não acompanhou: o Ibovespa terminou em baixa de 0,50%, a 175.710 pontos, com papel da Petrobras pressionando o índice.

Os títulos públicos indexados ao DI também recuaram após o estresse da véspera. O contrato para janeiro de 2028 caiu 48 pontos‑base, a 14,340%, e o para janeiro de 2031 cedeu 37 pontos‑base, a 14,91%. Na segunda-feira, porém, as mesmas taxas haviam disparado, respectivamente, cerca de 196 e 265 pontos‑base — movimento que levou o dólar ao maior ganho diário desde 1999 e acionou o circuit breaker da B3 pela primeira vez desde março de 2020.

A origem do choque é política e fiscal: muitos investidores diziam já precificar uma vitória de Flávio Bolsonaro e uma agenda de ajuste mais severa. A confirmação de Lula no quarto mandato reabriu o receio de políticas fiscais mais expansivas e de maior endividamento, o que elevou os prêmios de risco dos ativos brasileiros e forçou um reposicionamento acelerado de carteiras, segundo analistas do mercado.

No front oficial, o ministro da Fazenda afirmou ter cobrado do presidente uma sinalização ao mercado e disse que o governo tem medidas prontas para apresentar, incluindo iniciativas para perseguir a meta fiscal. Entre os nomes citados nos bastidores está o do governador do Piauí, que teria sinalizado disposição para deixar o cargo caso seja convidado para chefiar a pasta econômica — informação que os investidores acompanham de perto.

Para o investidor comum e para as contas públicas, a maior consequência é prática: volatilidade eleva o custo do endividamento e pressiona preços de ativos e referências como taxa de juros e câmbio. A correção de terça não anula o choque de segunda; ao contrário, deixa o mercado em expectativa por sinais concretos sobre ministério, medidas de ajuste e compromisso com responsabilidade fiscal — elementos que tendem a reduzir o prêmio que o Brasil paga pelo risco.

Os próximos capítulos serão decididos na formação da equipe econômica e na apresentação de um plano com bases de execução e fonte de ajuste. Enquanto isso, especialistas apontam que a alternância entre picos de aversão ao risco e correções deverá persistir. Os indicadores que o mercado vai monitorar de perto nos próximos dias são os nomes indicados para a Fazenda, propostas de ajuste e o comportamento das taxas de juros e do câmbio.