O Festival de Cinema Queer de Pequim (Love Queer Film Week), o evento LGBT mais antigo da China continental, foi cancelado pelos organizadores na véspera de sua abertura, após aumentarem as pressões das autoridades locais, informaram os próprios promotores. A mostra estava programada para começar nesta sexta-feira (30) na capital chinesa; em nota no Instagram, a organização pediu desculpas a participantes e ao público pelo cancelamento.
Segundo relato publicado pelo jornal britânico The Guardian e reproduzido pelos organizadores, a polícia chinesa intensificou nas últimas semanas um cerco ao evento por meio de telefonemas frequentes e de episódios descritos como intimidações. Os responsáveis pelo festival afirmam que essa escalada de pressão tornou impraticável a realização das exibições e debates previstos, levando à decisão de suspender a programação já anunciada.
Criado em 2001 por estudantes da Universidade de Pequim, o Love Queer Film Week era considerado o único festival na China continental dedicado a exibir filmes e promover debates com temática queer. Nos últimos anos, relatos e casos públicos vêm indicando uma redução da tolerância das autoridades locais em relação a eventos e obras que abordem gênero e sexualidade, impondo limites que afetam desde a organização até a circulação das obras audiovisuais.
A suspensão deste ano insere‑se num padrão com antecedentes documentados. Em 2014, o Festival de Cinema Independente de Pequim foi encerrado à força, com fundadores detidos e o local da mostra tendo a energia elétrica cortada. Mais recentemente, o alcance da censura ultrapassou fronteiras: no ano passado, uma exibição de cinema independente chinês prevista para Nova York foi anulada, segundo o mesmo jornal, em reação a represálias estatais.
Além do impacto imediato sobre público e cineastas — que perdem uma plataforma de exibição e debate — o cancelamento evidencia efeitos práticos sobre a liberdade de expressão e o espaço civil: obras não são apenas retiradas de cartaz, mas organizadores se veem expostos a riscos que inibem iniciativas futuras. Para comunidades locais e para a produção cultural que trabalha com temas LGBT, a perda de um fórum consolidado reduz visibilidade e oportunidades de diálogo público.
O episódio também traz implicações institucionais mais amplas: pressões administrativas e práticas policiais aplicadas a eventos culturais levantam questões sobre segurança jurídica, limites do poder e transparência das decisões públicas. Observadores e promotores culturais internacionais têm acompanhado casos semelhantes, que combinam medidas dentro do país com repercussões no exterior, e acompanham se haverá resposta oficial às alegações feitas pelos organizadores do Love Queer Film Week.