O avanço do PL no Senado no primeiro turno da eleição mudou o clima dentro do Supremo Tribunal Federal. Segundo levantamento publicado pela Folha, a vitória que levou o partido a ter 28 das 81 cadeiras reacendeu propostas para retirá‑lo de atribuições criminais e para abrir processos de impeachment contra ministros. A leitura de magistrados ouvidos em reserva é que, pela força política recém‑adquirida, a bancada quer usar o Congresso para limitar o alcance da Corte.

Entre os ministros há, porém, interpretações distintas sobre a intensidade e a durabilidade dessa ofensiva. Uma parte considera que há um calor momentâneo impulsionado pelo desempenho eleitoral; outra avalia que movimentos de impedimento serão inevitáveis em algum grau. A aposta de muitos interlocutores do STF é que, assim que o novo Senado se organizar, prevalecerá uma acomodação política, porque a bancada não é monolítica: há figuras ligadas a governadores e a partidos tradicionais que podem atuar como moderadoras.

O caráter heterogêneo da bancada é apontado como freio possível ao confronto institucional. Exemplos citados no material-base: André do Prado, associado ao governador Tarcísio de Freitas em São Paulo; Domingos Sávio, com trânsito antigo no PSDB em Minas; e senadores como Zé Medeiros e Reinaldo Azambuja, que migraram entre partidos antes de desembarcar no PL. Para interlocutores do STF, esses perfis deverão pesar na hora de transformar retórica em medidas concretas no plenário do Senado.

Há, entretanto, um risco prático que preocupa magistrados: muitos dos novos parlamentares são alvo de investigações criminais sigilosas que tramitam no próprio Supremo. Retirar da Corte a competência para julgar crimes cometidos por autoridades federais poderia transferir processos para instâncias inferiores, com maior imprevisibilidade e risco de resultados contraditórios — efeito que, segundo parte do Judiciário, poderia ser pior para quem busca segurança jurídica do que a manutenção do status quo.

A foto interna do Supremo, levantada pela reportagem, mostra divisões também no próprio tribunal. A Folha menciona ministros que são alvos das críticas bolsonaristas por suposta proximidade ao presidente Lula, citando nomes que aparecem no debate público, e aponta um grupo que se considera mais neutro, como o presidente do tribunal e outras referências institucionais. Há ainda juízes apontados como mais alinhados ao bolsonarismo no passado, que avaliam custo e benefício de um embate aberto.

A pressão política já gerou sugestões de medidas pessoais: aliados de senadores chegaram a dizer que resignação seria o melhor caminho para um ministro alvo de cobranças, mas interlocutores desse magistrado negaram que ele cogitasse deixar o cargo, mesmo diante de críticas ligadas a episódios recentes. No plano institucional, o que vai determinar a intensidade do confronto é o resultado do segundo turno: em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, a expectativa é de maior propensão a acordos que limitem choques; se não, o embate pode se manter aberto. O que acompanharão cidadãos e mercados nos próximos dias são propostas concretas no Senado — PECs sobre competências da Corte, pedidos de impeachment e movimentações para alterar a alocação de processos.