A Polícia Federal abriu apuração sobre recebimentos de R$22,4 milhões vinculados à Talismã Digital, empresa associada a Virginia Fonseca e que passou a constar apenas em nome dela após a separação. Segundo comunicaçãodo Banco Santander ao COAF, entre março e setembro de 2024 a empresa recebeu R$21,4 milhões por 44 transferências via PIX e R$1 milhão em 18 transferências via TED. O ex-marido, cantor Zé Felipe, também aparece como investigado nos autos.

Chama atenção nos documentos a concentração de recursos vindos de uma única contratante: a AMP Pay Marketing e Negócios efetuou cinco dos PIX que somaram R$17,7 milhões. A empresa está registrada no regime Simples, cujo teto de faturamento anual é significativamente inferior ao montante repassado, fato que teria acionado mecanismos de inteligência financeira e comunicado ao COAF. A assessoria de Virginia informou que os valores correspondem a campanhas publicitárias contratadas e que todas as operações foram declaradas, com emissão de nota fiscal, segundo reportagens que tiveram acesso aos documentos.

O cenário se complica pelo entrelaçamento entre vidas pessoais e empresariais. Apesar de terem anunciado a separação e formalizado o divórcio rapidamente, os vínculos societários e transações realizadas enquanto havia sociedade na Talismã Digital mantêm o casal no radar das autoridades. Dados levantados mostram que Virginia figura como sócia ou proprietária de ao menos 38 empresas criadas entre 2021 e 2026, a maioria aberta entre 2023 e 2024, período em que passou a ter participação no grupo We Pink.

Tecnicamente, operações atípicas acionam alertas de instituições financeiras que enviam comunicações ao COAF para análise. Na prática, volumes elevados concentrados em poucos pagamentos, uso intensivo de PIX e discrepância entre faturamento declarado por uma contratante e os repasses recebidos podem indicar risco de irregularidades fiscais ou problemas de conformidade. Essas comunicações não equivalem a acusação formal, mas costumam desencadear diligências da Polícia Federal e pedidos de documentação complementar pelas autoridades.

Entre os desdobramentos possíveis estão pedidos de informações fiscais, quebra de sigilo bancário ou fiscal mediante autorização judicial, e eventual interação entre a PF, a Receita Federal e órgãos de controle. Empresas envolvidas podem ser alvo de auditorias administrativas e ter que comprovar origem e natureza dos recursos. Para figuras públicas, além das consequências legais, há impacto comercial e reputacional que pode afetar contratos e parcerias, dependendo do avanço das investigações.

No estágio atual, as apurações foram motivadas por comunicações de instituições financeiras ao COAF e as informações vazadas à imprensa mostram o caminho inicial do processo. A defesa de Virginia afirma que as receitas foram devidamente contratadas e declaradas; a Polícia Federal e demais órgãos terão agora a tarefa de confrontar documentos, notas fiscais e contratos para esclarecer movimentações. O caso segue em investigação e novos passos dependerão das diligências oficiais e dos elementos que forem reunidos.