“Vamos acabar com essas amarras ambientais”, disse o senador Flávio Bolsonaro em vídeo de campanha que virou síntese de uma plataforma clara: reduzir restrições ambientais para permitir a exploração de terras raras e outros recursos no Norte do Brasil. A mensagem mira eleitores insatisfeitos com fiscalização e promete destravar empreendimentos — resorts, mineração e até garimpo — sob o argumento de gerar crescimento econômico imediato.
O discurso vem acompanhado de posicionamentos públicos que relativizam a ciência climática e colocam a flexibilização ambiental como prioridade. O plano de governo do senador não menciona termos como “mudança climática” ou “aquecimento global”, enquanto promete modernizar normas de preservação. Para quem acompanha políticas públicas, trata-se de uma aposta deliberada na agenda da desregulamentação como instrumento eleitoral.
No campo oposto, o presidente Lula transformou a pauta ambiental em marca de campanha, embora sua gestão também tenha sido criticada por autorizar exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Há diferenças concretas de metas: o governo federal diz visar zerar o desmatamento até 2030; o plano de Flávio fixa 2029 como prazo, mas sem explicar como conciliar essa meta com a liberação de atividades em áreas sensíveis.
As propostas têm repercussões locais imediatas. Em agosto, o Pará aprovou lei que abriu espaço para pecuaristas na terra indígena Ituna-Itatá; em Rondônia, parlamentares reagiram contra decisões do Supremo que mandaram retirar invasores de áreas indígenas. Nos discursos locais, fazendeiros e políticos pressionam por títulos de propriedade que tornariam ocupações atuais praticamente intocáveis, ampliando risco de grilagem e conflito com comunidades tradicionais.
Especialistas consultados apontam um padrão: políticos que prometem remover a presença do Estado — entendida como multa e operação — atraem eleitores onde faltam alternativas econômicas e crédito rural. Segundo analistas do setor climático e de direitos territoriais, a fiscalização isolada, sem políticas de desenvolvimento sustentável, deixa brecha para o crime organizado e para a regularização de ocupações irregulares em prejuízo do patrimônio ambiental e da segurança jurídica.
Para o eleitor, a disputa não é só sobre parques ou fazendas: trata-se de escolhas que afetam investimentos, imagem internacional do Brasil como anfitrião de eventos climáticos e a proteção de direitos indígenas. A tensão entre abrir caminhos para exploração de recursos e manter regras que garantam previsibilidade e proteção de ativos ambientais e sociais será um dos testes de coerência de candidatos, tribunais e agências como Funai e Ibama nas próximas eleições.