O apresentador Luciano Huck usou o Domingão, no domingo (27/9), para promover a plataforma TemMeuVoto — apelidada nas redes de “Tinder eleitoral” — e despertou uma onda de críticas. Internautas relataram que, mesmo ao responder o questionário como eleitores de esquerda, receberam como recomendação majoritária nomes do Novo, do PL e de outras candidaturas de direita. As postagens classificaram a divulgação como problemática e chegaram a pedir atuação do TSE.
A plataforma se apresenta como gratuita e apartidária: o eleitor responde a oito afirmações em uma escala de cinco posições, indicando prioridades, e o sistema calcula um percentual de alinhamento com candidaturas a deputado estadual, federal e senador. Segundo os responsáveis, tanto eleitores quanto políticos respondem ao mesmo questionário; o projeto afirma não empregar inteligência artificial para inferir posições e não recomendar voto. O site também lista apoio de mais de 15 organizações, entre elas Comunitas, RENOVA BR e Transparência Internacional — Brasil.
As críticas nas redes se concentraram em dois pontos práticos. Primeiro, relatos e imagens mostraram que usuários que marcaram respostas coerentes com a esquerda receberam como resultados candidatos filiados a partidos liberais ou conservadores. Segundo, houve queixas sobre a composição da base de candidaturas: perfis públicos disseram que “quase só políticos de direita” responderam ao questionário, o que pode enviesar sugestões. Alguns internautas chegaram a qualificar o episódio como possível infração eleitoral e pediram investigação ao tribunal.
A própria plataforma detalha como monta o resultado e por isso parte da polêmica tem origem metodológica. A prioridade é a resposta do próprio candidato; na ausência dela, o sistema usa votações nominais dos deputados federais na Câmara entre 2023 e 2026; se também não houver registro, adota a posição majoritária da bancada do partido. Essa sequência explica porque candidatos com histórico de voto na Câmara tendem a aparecer mais claramente, enquanto postulantes sem registros acabam sendo classificados pela legenda — escolha que, segundo críticos, pode ampliar distorções.
Há um segundo ingrediente político: a promoção feita por um dos apresentadores mais conhecidos da TV aberta, na reta final da campanha, aumenta o potencial de influência sobre eleitores indecisos. De um lado está a liberdade de expressão e a utilidade de ferramentas para orientar escolhas; do outro, a exigência de transparência em projetos que moldam informação eleitoral. O contraste entre a afirmação pública de neutralidade e relatos de usuários que percebem um viés tornou o caso um exemplo prático do debate sobre regulação e fiscalização de tecnologia politica.
No curto prazo, a disputa deve seguir em duas frentes: técnicos e críticos pedem a publicação clara dos dados brutos e das listas de candidatos que responderam; o campo jurídico pode avaliar eventuais denúncias ao TSE. Para o eleitor, o caminho prático é simples e informado: consultar o próprio site temmeuvoto.org.br com cautela, checar o histórico de votações e propostas dos candidatos e cruzar informações em fontes oficiais. O projeto, lembrando, tem apoio declarado de organizações civis que o apresentam como ferramenta de orientação, não de recomendação de voto.