O governo federal decidiu encerrar as operações conhecidas como bets no país, alinhando-se a uma postura contrária a jogos de azar que o presidente já adotara em 2004. Naquela ocasião, uma medida provisória determinou o fechamento de casas de bingo e de máquinas eletrônicas, medida que acabou por marcar a relação do Executivo com o setor: ação imediata, argumento anticorrupção e choque com interesses econômicos e políticos ligados à exploração do jogo.
A Medida Provisória nº 168, publicada em 20 de fevereiro de 2004, ordenou o fechamento imediato e a proibição da exploração de todas as modalidades de bingos e máquinas do tipo em todo o território nacional. O texto anulou licenças, concessões e autorizações expedidas pela Caixa Econômica, por estados ou municípios e previa multa diária de R$ 50 mil para quem descumprisse a ordem. A norma foi uma resposta direta ao episódio que ficou conhecido como 'Escândalo dos Bingos'.
O gatilho político do movimento foi a divulgação de um vídeo em que um assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, aparecia cobrando propina do bicheiro Carlinhos Cachoeira para facilitar a liberação e a regulamentação dos jogos no Rio de Janeiro. A associação entre tentativa de aparelhamento político e interesses privados deu sustentação à ação do Executivo, mas não encerrou ali o conflito: o setor mobilizou o Congresso e parte das casas voltou a funcionar meses depois.
A Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) chegou a defender que as cerca de 1.100 casas do país geravam mais de 300 mil empregos, argumento usado para pressionar parlamentares. A MP 168 sofreu forte lobby e foi derrubada pelo Parlamento três meses após a edição — o Senado rejeitou formalmente a medida. Ainda assim, nas etapas seguintes decisões judiciais e operações policiais consolidaram o fechamento definitivo, e a exploração desses jogos ficou tratada como contravenção penal.
O fim das bets, agora, retoma essa tensão clássica entre proibição, regulamentação e mercado. Do ponto de vista prático, a medida afeta receitas, postos de trabalho diretos e indiretos e empurra parte da atividade para a informalidade, com risco maior de crime organizado e de perda de controle sanitário e de proteção a dependentes. Especialistas em saúde já alertaram que apostas online podem se tornar problema de saúde pública ao agravar vícios e fragilizar famílias, argumento que pesa no debate sobre proibir ou regular.
A história mostra que medidas do Executivo enfrentam limites quando confrontadas com lobby e com a necessidade de legislação estável. A experiência de 2004 deixa duas lições: ação rápida pode corrigir abusos e expor irregularidades, mas sem uma regulamentação clara a atividade tende a migrar para a ilegalidade ou a tornar-se objeto de batalhas institucionais recorrentes. Para cidadãos e empresas, o desfecho prático dependerá agora da capacidade de fiscalização, de decisões judiciais e da eventual postura do Congresso.