A três dias do primeiro turno, o empresário Pablo Marçal usou a transmissão ao vivo de Flávio Bolsonaro para fazer um apelo público incomum: pediu que três presidenciáveis do campo de direita — Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury — desistam da disputa e passem a apoiar o senador. O pedido, feito na noite de quinta-feira, foi apresentado como uma tentativa de concentrar votos e evitar uma vitória de Luiz Inácio Lula da Silva já no domingo. Marçal se aproximou formalmente da campanha bolsonarista nos últimos dias e deixou o partido ao qual estava filiado antes de assumir essa posição.

Na palavra dirigida aos concorrentes, Marçal escolheu ordem e tom distintos para cada um. Ao escritor e psiquiatra, disse que havia amizade e sugeriu paciência, defendendo que ele disputasse em outra ocasião. A Caiado ofereceu, como alternativa, um papel em um eventual governo na área de segurança — proposta feita por Marçal sem anúncio de acordo público por Flávio. O mais direto foi o convite a Zema: segundo Marçal, a candidatura do ex-governador mineiro não teria ganhado tração e, por isso, deveria caminhar ao lado do senador.

O ato público ocorreu logo depois de Flávio Bolsonaro declarar que não participaria do debate da TV Globo agendado para a mesma noite. A emissora suspendeu o evento após decisões judiciais que alteraram a condução do programa, incluindo uma liminar da ministra do TSE Estela Aranha que proibiu a manutenção de um púlpito vazio reservado a Lula. Com a perda daquele espaço de confronto, a transmissão acabou funcionando como plataforma para o discurso de unidade da direita; na mesma live, Flávio pediu votação considerada “inteligente” pela equipe e afirmou que seria o único capaz de derrotar Lula já no primeiro turno.

Os três presidenciáveis citados seguiram na disputa. Após o cancelamento do debate, Caiado, Zema e Cury concederam entrevistas criticando tanto as ausências quanto as circunstâncias que levaram à suspensão do encontro. Caiado, que estava no estúdio da Globo no momento em que o debate foi interrompido, acusou a Justiça de ter prejudicado o processo eleitoral; Zema e Cury também manifestaram insatisfação com os eventos, mas mantiveram a candidatura. Não houve, até então, nenhum anúncio formal de retirada nem sinal de que os partidos abram mão da disputa a curto prazo.

O apelo público de Marçal traz à tona dois pontos centrais da campanha: a fragmentação do campo de direita e a pressão por acordos de última hora. Tecnicamente, renúncias tão próximas do pleito têm efeitos práticos limitados sobre a composição do voto, porque mudanças de posição exigem tempo político e mobilização de bases. Politicamente, a oferta de cargos como incentivo revela uma negociação não consumada e expõe contradições entre o discurso de união e a preservação da autonomia partidária dos alvos do pedido. Pelo menos por ora, a movimentação serve mais para marcar posição do que para mudar o mapa eleitoral de imediato.

Com o relógio eleitoral acelerando, a cena evidencia a volatilidade das últimas horas de campanha e a centralidade das decisões judiciais na rotina eleitoral — seja na definição de debates, seja na disputa narrativa entre candidatos. Para o eleitor, o fato concreto é que Caiado, Zema e Cury permanecem como opções na urna e que qualquer rearranjo de apoios dependerá de anúncios formais nas próximas 72 horas. Acompanhar a reação das legendas e a movimentação nos bastidores será determinante para entender se o apelo se limita a um gesto simbólico ou se provoca desdobramentos reais antes do domingo.