O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro publicou um vídeo na quinta-feira à noite para negar um boato que vinha circulando nas redes: segundo ele, não existe qualquer plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. "Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto", afirmou, atribuindo a desinformação àquilo que chamou de "milícia do PT". A negação aconteceu em meio à viralização de um trecho televisivo.
A origem do episódio está num comentário feito pela jornalista Maria Cristina Fernandes no programa Em Pauta, da GloboNews. Ao falar sobre o comportamento do eleitorado religioso, ela disse haver "um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos" e mencionou, em termos gerais, a mobilização em torno de um suposto projeto de lei. Trechos desse bloco circularam nas redes com a versão distorcida de que Flávio seria autor ou apoiador da proposta.
A própria GloboNews fez correção e pediu desculpas nas primeiras horas do dia seguinte, reconhecendo que a peça acabou dando a entender algo que não foi afirmado originalmente. Há, de fato, um projeto citado nas redes — o PL 2.623, apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli —, mas a proposta foi rejeitada em comissão, não progrediu e foi arquivada em agosto de 2008. A Câmara já havia esclarecido situação semelhante em 2018: o projeto não está em tramitação.
O episódio se soma a outras declarações do senador que têm alimentado interpretações sobre uso simbólico da religião em campanha. Em 24 de agosto, Flávio publicou que, se eleito, declararia o Brasil "do Senhor Jesus Cristo". O comentário reacendeu preocupações entre opositores e parte do clero; o cardeal Leonardo Steiner disse: "Nós não temos partido. Mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia" e o bispo Dom Guilherme Werlang advertiu que "as igrejas não são currais eleitorais".
A disputa importa porque o eleitorado religioso é numeroso e sensível a sinais simbólicos; boatos como esse podem polarizar e mobilizar torcidas em torno de temores identitários, com efeitos práticos no voto. A rápida retratação da GloboNews e o próprio compartilhamento da correção por Flávio mostram como meios e candidatos tentam controlar narrativas assim que o conteúdo viraliza. Especialistas em democracia e imprensa apontam que esclarecer a origem das alegações é essencial para conter a agenda da desinformação.
Na prática, não há hoje proposta em tramitação para alterar o status de padroeira de Nossa Senhora Aparecida: o PL citado foi arquivado em 2008. O episódio, porém, revela duas tendências relevantes para a campanha — a facilidade de amplificação de recortes fora de contexto e a centralidade do debate religioso na reta final. Eleitores e meios de comunicação ganham, portanto, um indicador objetivo para checagem: confirmar a data e o número de projetos antes de compartilhar narrativas com potencial eleitoral.