Desde a retomada das eleições diretas para presidente, em 1989, apenas um candidato conseguiu encerrar a disputa já no primeiro turno: Fernando Henrique Cardoso. Em 1994, FHC alcançou 54,24% dos votos válidos; em 1998, repetiu com 53,06%. Esses resultados continuam sendo, até hoje, a única vez em que uma eleição presidencial no Brasil não precisou de segundo turno — um recorte que altera a formação de coalizões e a dinâmica da campanha.

A regra é direta: para evitar o segundo turno, um candidato precisa obter maioria absoluta dos votos válidos, ou seja, mais de 50%. Esse limiar foi superado por FHC nas duas eleições que venceu na primeira etapa. Na eleição de 1989, a disputa voltou para o segundo turno entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, inaugurando uma sequência — que persiste — de pleitos que só se decidem na etapa final.

Depois de FHC, nenhum vencedor conseguiu esse atalho. Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva precisou do segundo turno contra José Serra e venceu. Quatro anos depois, em 2006, Lula foi reeleito após disputar o segundo turno com Geraldo Alckmin. Dilma Rousseff também só foi eleita e reeleita após segundas votações — derrotando Serra em 2010 e Aécio Neves em 2014. Jair Bolsonaro foi eleito no segundo turno em 2018 contra Fernando Haddad; em 2022 Lula venceu Bolsonaro por 50,9% a 49,1%.

Por que a primeira volta resistiu a ser retomada como solução comum? Há explicações políticas e estruturais: a fragmentação do sistema de partidos, o aumento do número de candidaturas competitivas e a polarização ideológica tornam mais difícil que um candidato acumule mais de metade dos votos válidos já na primeira etapa. Além disso, modelos de campanha e cenários de opinião pública recentes costumam consolidar preferência apenas entre os dois finalistas.

A prevalência do segundo turno tem efeitos práticos. Ele estende a campanha, exige formação de alianças em curto espaço e impõe negociações com partidos e bancadas que podem condicionar a agenda do vencedor. Para o eleitor, significa uma decisão dupla e possivelmente intensificação do confronto eleitoral; para o Estado, implica custo adicional de logística e segurança. O segundo turno também tende a deslocar o foco para estratégias de voto útil e negociação de apoio parlamentar.

O saldo é que a vitória direta no primeiro turno permanece uma exceção histórica — a marca deixada por FHC em 1994 e 1998. Nas próximas eleições, a disputa pelo cruzamento da barreira dos 50% seguirá sendo objetivo claro dos candidatos, mas os mesmos fatores que tornaram o segundo turno predominante — fragmentação, polarização, múltiplos candidatos — continuam a ser obstáculos concretos. Para o eleitor, o ponto essencial permanece técnico e decisivo: só quem alcança mais de metade dos votos válidos evita a segunda etapa.